
Pular sete ondas na praia, guardar sementes de romã ou de uva, soltar fogos de artifício e participar de reuniões em torno de uma ceia farta são algumas das cenas comuns que fazem parte da vida de muitas famílias brasileiras, durante as festas de final de ano.
Em cada região do País, os rituais mudam de acordo com as tradições religiosas e culturais locais. No norte e nordeste, por exemplo, algumas pessoas fazem os banhos-de-cheiro, preparados com ervas que prometem atrair amor, sorte ou dinheiro.
O educador e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Mário Sérgio Cortella, explica que celebrar é tornar inesquecível, célebre, um momento de nossa existência. “Fazemos isso através de rituais, atitudes que expressam nossas crenças, religiosidade e cultura, ou seja, daquilo que consideramos essencial para nossas vidas”.
Por isso mesmo, existem pessoas que buscam rituais inusitados para celebrar o final do ano, mais apropriados ao jeito de ser. A atriz Kika Bruno, 32 anos, segura na mão um objeto que usou durante o ano todo. Pode ser um anel, um colar ou uma pulseira. “A primeira coisa que faço é entregar esta peça para uma pessoa desconhecida, desejando que ela tenha muita sorte”, conta.
Kika diz que faz este pequeno ritual de ano novo há quatro anos, quando ganhou um presente de uma pessoa desconhecida que lhe trouxe muita sorte. “Também abro as janelas da minha casa para deixar entrar a nova energia que circula no mundo. É uma tradição que a minha avó me ensinou e que sigo até hoje”.
O advogado Sebastião Bastista, 53 anos, também busca sua própria maneira de dar boas-vindas ao novo ciclo da vida. “Não gosto de multidões, prefiro ficar recolhido em um sítio com amigos, cantando mantras e músicas que falem do amor, da paz e da alegria. Quando chega a meia-noite, em vez do barulho dos fogos, permaneço em silêncio imaginando que meu corpo e toda a Terra estão envoltos por uma luz rosa que simboliza o amor”, descreve seu ritual. Sebastião diz que isso surgiu espontaneamente em sua vida e os amigos foram se juntando na busca por uma celebração diferente. “Através desses rituais me sinto conectado com o todo”, complementa.
O casal Rosana Lemos Jorge, 33 anos, chef de cozinha, e José Roberto, 35 anos, advogado, sempre estão dormindo na virada do ano. “Nosso ritual é voltado para o dia. Faz quatro anos que me reúno com um grupo de amigos, em um sítio sem energia elétrica. Ali, a simplicidade, principalmente a do coração, é preservada. Preparamos um delicioso banho de ervas, colhemos flores para enfeitar a mesa, alface, cenoura, batata e o que mais a terra nos oferecer para preparar a ceia. Tomamos o banho para nos ‘limpar’ do ano anterior e de tudo que queremos deixar para trás. Meditamos juntos e permanecemos em silêncio. Nossa ceia é bem antes da meia-noite e vamos dormir em paz para receber o ano que vai começar”, diz Rosana.
Natal diferente
A atriz Talitha Pereira, 25 anos, conta que toda a sua família é vegetariana. “Em nossas festas de final de ano sempre há um cardápio diferente do tradicional. Muitas vezes misturamos pratos da culinária indiana com a árabe. Mas nada de carnes nem panetone, que muitas vezes leva ovo. Os amigos que, por ventura, passam o Natal com a gente, sempre acham muito engraçado. Mas todos saem satisfeitos da mesa”, conta.
Na casa da professora Emanuela Tackahaschi, 32 anos, as árvores de Natal e os enfeites vermelhos e dourados dão lugar a flores e frutos. “Como não sou católica, comemoro a chegada do verão. Preparo uma mesa com frutas frescas e doces caseiros feitos com frutas da época, como sorvete de manga e abacaxi. Em vez de velas rebuscadas, coloco velas amarelas, vermelhas, verdes e azul-claras, que, para mim, representam o ar, o fogo, a terra e a água”, conta.
Na porta de sua casa, Emanuela coloca guirlandas feitas com flores coloridas, como girassol e beijo-de-moça. “Nesse dia, tomo banho com ervas aromáticas e perfumo a casa com incenso de lavanda e camomila. Visto roupas claras que combinam com o calor e o frescor da estação. Traço um círculo com pétalas de flores, faço uma dança circular e uma oração de agradecimento por mais um ciclo da natureza. Depois, abençôo a comida e sirvo a ceia”, complementa.
Os presentes oferecidos pela professora, em sua maioria, são feitos à mão. “Para as crianças, faço travesseiros ou bonecos de pano recheados de flores secas perfumadas. Este ritual está em minha vida há mais de cinco anos. Neste ano, vou inaugurar a casa nova e comemorar o tempo com meu marido e minha filha. Espero que ela possa levar esta tradição para nossas futuras gerações e celebrar a vida com muita paz”, finaliza.
E você, qual a sua maneira de comemorar as festas de final de ano?